domingo, 18 de novembro de 2012

Origem das Plantas Comestíveis


Pité Lauriano Manchineri - Autor
Manchineri não tem muito conhecimento de como surgiram os legumes. Segundo nossa história, desde muito tempo havia pessoas morando nesta terra. Nesta época havia um homem muito trabalhador e bom com arco e flecha. Também havia outra família que tinha quatro filhas solteiras.

Certo dia, esse homem foi a casa dessa família, pedir a mão da filha mais velha ao pai, e ele a entregou. Após três dias, o homem levou a filha mais velha para sua casa. Depois de três dias que estavam lá, o rapaz fala para a sua mulher que vai caçar.

Ao retornar da caçada, traz muita caça em suas costas, após colocar os animais na cozinha, ele chama sua esposa para tratar os animais, e pede para que ela prepare a carne toda assada. Após comer toda carne assada, ele chama sua esposa e a mata para complementar sua refeição, deixando somente a cabeça, este a coloca embaixo de uma arvore de Sumaúma.

No dia seguinte, bem cedo, o rapaz foi atrás do seu sogro para avisá-lo que sua filha havia desaparecida no dia anterior, quando ele estava na mata. Próximo a casa de seu sogro, começou a chorar bem forte para que o sogro não desconfie dele.

Uma das irmãs da finada ouviu um choro que vinha da direção do caminho e avisou ao pai, que foi encontrá-lo. O rapaz contou para o sogro que a sua filha tinha desaparecida. “Ontem fui caçar e acho que a onça matou a minha mulher!” Ao receberem esta notícia, a família toda ficou muito entristecida.

Passado alguns dias, o rapaz começou a namorar a segunda filha. Ele ficou na casa da família da mulher, ia caçar e trazia muitas caças para comerem. Durante os dias que o rapaz estava com eles, comia bem pouquinho, foi por isso que ninguém percebeu como ele era. Daí pediu a segunda filha em casamento e o pai aceitou novamente. Igualmente, passou poucos dias na casa do seu sogro, levou sua nova mulher para o mesmo lugar onde ele matou a primeira filha. Dizem que o sogro deu-lhe conselho para ele não a deixar sozinha, tudo foi combinado.

Chegaram lá e foi à mesma coisa, ele inventou de caçar e quando voltou, matou de novo a sua mulher e a comeu.

Ele fez a mesma coisa, voltou para casa de seu sogro fazendo como aconteceu com a primeira e a segunda: ficou de novo uns dias namorou a terceira filha. Igualmente a levou e a matou como fez com as outras filhas. Voltou para a casa do sogro.

O velho ficou só com uma filha, que era a sua caçula. O homem a namorou e a levou, como levou as outras. Só que esta era mais esperta. Quando ela chegou nesse lugar, ficou um pouco desconfiada.

Antes de o homem ir caçar, falou para ela não sair de casa porque ali era um lugar onde suas irmãs desapareceram. Disse que tinha uma árvore de sumaúmas bem grande mais ou menos, a uma distância de 50 metros, que não era para a moça sair para nenhum lugar e nem se aproximar daquela árvore.

Quando passaram poucos minutos que ele sumiu, chegou a coragem da menina. Ela disse: “Por que será que ele me proibiu de sair para canto algum?” Levantou-se e foi embora espiar a árvore de samaúma.

Quando foi mais para trás viu três cabeças podres com todo o cabelo.

Daí ela voltou, quando chegou à barraca pensou muitas coisas. Quis fugir! Mas depois ela disse: “Não, Vou esperar até ele chegar!”.

Ela subiu numa árvore que havia bem próximo da casa. Com pouco tempo o cara chegou carregado, trazendo todo tipo de bichos da mata. Começou a chamá-la. Chamou, chamou e chamou até que ele cansou. Começou a preparar a comida. Foi assando e comendo, até que acabou tudo.

Então, começa a chamá-la novamente. Quando ela estava para responder. Ele falou: “Ah, você adivinhou que eu ia te matar e te comer?! Igualmente como fiz com tuas irmãs!” Ele não tinha mais nada de carne para comer. Dizem que ele pegou na sua barriga: “Aqui está ainda mole!” A mulher estava escutando tudo que ele falava. De repente o homem diz: “será que a minha própria carne também é boa?” Pegou a faca e começou a cortar a carne de sua perna esquerda, botou fogo e comeu bem rapidinho. Continuou, cortou o outro lado da carne de sua perna e quando tentou caminhar, ele disse: “Ah! Ainda posso andar!” Daí cortou mais de sua carne, tentou andar e não podia mais ficar em pé. Quando a mulher viu que ele não podia mais andar, desceu da árvore e disse para ele: “Agora você me paga! Foi você mesmo que tinha matado as minhas irmãs”. Naquela hora, quando viu a sua mulher, ele falou: “Oh, minha mulher! Tenha compaixão de mim. Já estou desse jeito, me ajude!”.

A mulher foi buscar um maço de pilão e abarcou na cabeça dele e ele morreu. Após matar o marido ela foi embora para a casa de seus pais. Quando estava bem pertinho de chegar, começou a chorar de saudades das suas irmãs.

Quando os pais ouviram o choro de novo, disseram: “Agora estamos sem filha!” Quando apareceu a sua filha, perguntaram o que tinha acontecido com ela. Depois de poucos minutos, ela contou que tinha achado as cabeças das suas irmãs, que não foi a onça que as matou, foi o marido delas que as tinha comido. Ela contou para os seus pais. O pai perguntou onde ele estava, e ela: “Eu já o deixei morto”. O pai mandou seus filhos, que eram casados e moravam em outro lugar, ver o homem. E após três dias foram olhar o corpo que já estava em decomposição.

Pegaram o corpo e enterrarão em seu quintal. Três meses depois que aconteceu tudo isso, quando foram passando por esse mesmo lugar, viram que na sepultura, havia nascido algumas plantas: dos testículos nasceu o inhame; do dedo da mão nasceu cana; da barba nasceu murmuru; do dedo do pé nasceu pupunha; da tripa nasceu cipó e das outras partes do corpo brotaram muitos tipos de plantas comestíveis e medicinais.

Esta é a história que o povo Manchineri conta de como surgiram alguns legumes e ervas da mata.

 

Jaime Llullu Sebastião Prischico Manchineri

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

POR UMA COIAB MAIS FORTE EM 2012


Para fortalecer o movimento indígena amazônico no ano de 2012, acontece em Manaus, capital amazônica do Mundo, de 27 a 31 de março, a Assembléia Extraordinária da COIAB que tem como principal objetivo discutir as atuais questões de sustentabilidade financeira da entidade que é uma das maiores organizações indígenas do país. O evento reunirá 100 lideranças indígenas representando os nove estados da Amazônia Brasileira.
De acordo com Marcos Apurinã, coordenador geral da COIAB, o momento é propício para a realização do evento, tendo em vista os acontecimentos previstos para 2012 como a RIO+20, por exemplo. “A nossa organização passa por algumas dificuldades e é importante que as lideranças possam participar dessa assembléia com suas propostas, para encontrarmos soluções para as dificuldades que enfrentamos”, disse.
Entre os assuntos em pauta na Assembléia destacam-se a reestruturação do CONDEF – Conselho Deliberativo e Fiscal da COIAB, que é a instância máxima de decisão da COIAB que hoje é presidido pelo Sr. Agnelo Xavante. Também será discutida a atual composição da COIAB que está atuando somente com dois dos seus coordenadores.
Sustentabilidade Financeira – Segundo o coordenador geral da COIAB, o convênio com a FUNASA no atendimento à saúde indígena nas comunidades do Amazonas deixou uma sequela muito grande. “Até hoje estamos pagando por um preço que não devemos. A COIAB foi muito prejudicada. Já resolvemos as dívidas trabalhistas, porém ainda há as operacionais e as dividas fiscais. Outras organizações também foram prejudicadas pelo convênio como a UNI (Acre), CUMPIR (Rondônia), OPIMP e CIVAJA (Amazonas). A impossibilidade de receber determinados recursos tem nos atrapalhado bastante. Entretanto, as agendas continuam acontecendo e a nossa luta não para. Esse é o compromisso que assumimos”, afirmou.
Para a liderança Apurinã a sustentabilidade do movimento indígena precisa, em algum momento, vir do próprio movimento, da sua base, conforme foi colocado em junho de 2011, no Diálogo das Lideranças da Amazônia, um encontro das novas e antigas lideranças do movimento indígena amazônico, realizado pela COIAB, em parceria com a FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. “Estamos com objetivos claros para esse ano. O Parlamento Indígena é uma realidade que precisamos construir. A nossa autonomia enquanto movimento deve partir dessa demanda. Unidos somos bem mais fortes”.

Fonte: Setor de Comunicação da COIAB.






quarta-feira, 30 de novembro de 2011

NOTA DOS POVOS INDÍGENAS DA AMAZONIA BRASILEIRA NA COP 17

Considerando que nós povos indígenas da Amazônia Brasileira, no Brasil somos os guardiões milenares de nossas terras, que tem a cerca, de 13% da extensão total do território brasileiro. E a COP 17 e um momento onde o mundo esta olhando para problemas que o planeta esta passando devido às mudanças climáticas.
Considerando que os nossos antepassados já haviam alertado à muitos tempo atrás sobre tais preocupações e conseqüências. Considerando a sabedoria indígena, usos, costumes e tradições, têm ajudado a conservar um ambiente com qualidade.
No entanto, outros fatores têm avançados além das terras indígenas, sendo necessária a implementação de nossos direitos e esforços conjuntos para frear os efeitos climáticos. Considerando nossa realidade no Brasil, estamos trazendo a COP 17, as seguintes preocupações, ver anexo.
O nosso grupo irá apresentar estes pontos, como uma das maiores preocupações, que estamos tendo, além de outras discussões importantes. E o nosso grupo chegou segunda feira no dia 28 do corrente mês, agora estamos participando das discussões junto a Coordinación del Organizaciones Indigenas del Cuenca Amazônica – COICA, onde a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB, é membro.

Neste evento se encontram Sonia Guajajara – vice, coordenadora da COIAB; Francisco Avelino representante da COIAB-DF; Sra. Sinéia – do CONSELHO INDIGENA DE RORAIMA - CIR e Eu, Clovis Rufino Reis, representando os Povos Indígenas do Vale do Javari.


Clovis Rufino Reis
Líder indígena do Vale do Javari.

Povos Indígenas na COP 17

Declaración de los Pueblos Indígenas del Mundo ante la COP 17
 
Nosotros, los pueblos indígenas del mundo, unidos ante la urgencia de la crisis climática y frente a la falta de voluntad política de los Estados, principalmente de los mayores emisores de gases de efecto invernadero, demandamos la inmediata adopción de acuerdos vinculantes con responsabilidades diferenciadas pero compartidas, a fin de detener el calentamiento global y definir modelos alternativos de desarrollo en armonía con la Madre Tierra.
 
Desde hace décadas los pueblos indígenas hemos advertido que los cambios climáticos confirman el quiebre de la relación armónica entre los hombres y la Madre Tierra, poniendo en peligro el futuro de la humanidad en pleno. Es todo un modelo de civilización el que está en crisis, aquel que se inició hace 500 años con el saqueo de los bienes naturales para el enriquecimiento y la acumulación de capital. La alternativa es cambiar el sistema, no el clima, apostando por un nuevo paradigma civilizatorio, por el Buen Vivir, en armonía entre los pueblos y la Madre Naturaleza.
 
Nuestras propuestas
 
Marco general:
 
  • Reconocer y respetar la libre determinación de los pueblos indígenas, particularmente nuestros derechos a los territorios y bienes naturales, de conformidad con la Declaración sobre los Derechos de los Pueblos Indígenas de la ONU.
  • Asegurar y garantizar la participación plena y efectiva de los pueblos indígenas en todos los niveles, respetando los procesos basados en la consulta y el consentimiento previo, libre e informado, de conformidad con la Declaración sobre los Derechos de los Pueblos Indígenas de la ONU.
  • Reconocer, respetar y fortalecer la contribución fundamental de los conocimientos, innovaciones y prácticas tradicionales de los pueblos indígenas.
  • Revisar las concepciones de desarrollo basadas en la acumulación de riquezas que acentúan la explotación sin límite de los bienes naturales.
 
Visión compartida:
 
  • Urgimos a los países desarrollados a alcanzar un marco de compromisos vinculantes con marcos concretos de reducción de emisiones de gases de efecto invernadero (GEI) como seguimiento al Protocolo de Kioto que vence el año 2012.
  • Planteamos una reducción de emisiones de por lo menos 45% bajo los niveles de 1990 para el 2020 y de por lo menos el 95% para el 2050.
  • Eliminación gradual del desarrollo de combustibles fósiles, y una moratoria para nuevos modelos de desarrollo en o cerca de nuestros territorios y tierras indígenas, respetando los derechos al desarrollo de los pueblos indígenas.
  • La visión compartida para la acción de cooperación a largo plazo no debe reducirse a definir el límite en el incremento de la temperatura y la concentración de GEI en la atmósfera, sino que debe comprender de manera integral y equilibrada un conjunto de medidas financieras, tecnológicas, de adaptación, de desarrollo de capacidades, de patrones de producción, consumo y otras esenciales como el reconocimiento de los derechos de la Madre Tierra para restablecer la armonía con la naturaleza.
 
Transferencia de tecnología:
 
  • El conocimiento es universal y por ningún motivo puede ser objeto de propiedad y utilización privativa, como tampoco sus aplicaciones en forma de tecnologías. Los países desarrollados deben compartir su tecnología con los países en desarrollo, crear centros de investigación para la creación de tecnologías e innovaciones propias.
  • La transferencia e instalación de tecnologías debe ser inmediata, oportuna, libre de costo alguno, en armonía con la Madre Tierra y sin condicionalidades, tanto de tecnología ya patentada como de información no divulgada.
  • El régimen de derechos de propiedad intelectual debe modificarse para garantizar el acceso a tecnologías limpias de mitigación y adaptación, en especial las desarrolladas, con participación de fondos públicos, considerando las 45 recomendaciones adoptadas en el marco de la Agenda para el Desarrollo por la Asamblea General de la Organización Mundial de la Propiedad Intelectual. Deben incluir la develación de la fuente de origen de los saberes ancestrales, el consentimiento fundamentado previo y la participación equitativa en los beneficios.
  • Establecer los lineamientos para crear un mecanismo multilateral y multidisciplinario para el control participativo, la gestión y la evaluación continua del intercambio de tecnologías. Estas tecnologías deben ser útiles, limpias y socialmente adecuadas.
  • Establecer un fondo de financiamiento e inventario de tecnologías apropiadas y liberadas de derechos de propiedad intelectual, en particular de patentes que deben pasar de monopolios privados a ser de dominio público, de libre accesibilidad y bajo costo.
  • Toda evaluación, recuperación y desarrollo de acciones de mitigación y adaptación debe incorporar los conocimientos y tecnologías de los pueblos indígenas, sujeto a su consentimiento libre, previo e informado, y a la vez garantizar la plena participación de expertos indígenas.
 
Adaptación y mitigación:
 
  • Garantizar el respeto, la protección y el fomento de los conocimientos tradicionales y los modos de vida sostenibles de los pueblos indígenas. Incluir salvaguardas ambientales y sociales de los pueblos indígenas, incluyendo aspectos culturales y espirituales.
  • Políticas y fondos públicos que prioricen el reconocimiento territorial integral de los pueblos indígenas. Reconocer y promover los sistemas propios de los pueblos indígenas en el uso, manejo y conservación de los bienes naturales.
  • El sistema de monitoreo, reporte y verificación no debe limitarse a medir los cambios en la cobertura boscosa sino incorporar variables sociales, en particular la relativas al cumplimiento de los derechos indígenas.
  • Toda evaluación, recuperación y desarrollo de acciones de mitigación y adaptación debe incorporar los conocimientos y tecnologías de los pueblos indígenas, sujeto a su consentimiento previo, libre e informado y a la vez garantizar la participación de expertos indígenas.
·         Demandamos que el Foro Permanente de Asuntos Indígenas de la ONU recomiende a la Oficina del Alto Comisionado de las Naciones Unidas que el Relator Especial sobre los derechos humanos y las libertades fundamentales de los pueblos indígenas elabore un informe sobre los impactos del Cambio Climático en los Pueblos Indígenas.
·         Los Estados deben asegurar que los pueblos indígenas tengan el derecho de movilidad y no sean forzados a reubicaciones lejos de sus territorios y tierras tradicionales, y que los derechos de los pueblos en aislamiento voluntario se respeten.
·         En el caso de migrantes por cambio climático, los programas y las medidas adecuadas deberán ser acordes con sus derechos, estatus, condiciones y vulnerabilidades.
 
Financiamiento:
 
  • Todo mecanismo de financiamiento para la mitigación y adaptación del cambio climático debe ser establecido bajo la Convención Marco de Naciones Unidas para Cambio Climático y deben proporcionarse recursos directos para los pueblos indígenas.
  • Establecer mecanismos participativos para garantizar la transparencia y la rendición de cuentas en todos los procedimientos y operaciones de financiamiento. Los recursos deben proceder de fuentes públicas y ser adicionales a los fondos de ayuda al desarrollo.
  • Establecer un fondo especial que permita a los pueblos indígenas y comunidades locales desarrollar sus propias actividades y contribuciones para remediar el cambio climático.
  • Los países desarrollados deben comprometer un financiamiento anual nuevo de al menos 6% de su producto bruto interno para enfrentar el cambio climático en los países en desarrollo.
  • El financiamiento debe ser directo, sin condicionamiento y no vulnerar la soberanía nacional ni la libre determinación de las comunidades y grupos más afectados.
  • Las instituciones financieras internacionales, como el Banco Mundial, deben quedar fuera de la administración de los fondos creados y a crearse. Porque financian proyectos que contribuyen al calentamiento global y con mayor razón ahora que el Banco Mundial pretende eliminar las salvaguardas para pueblos indígenas a través del “Programa por Resultados” – P4R.
  • Los países desarrollados, principales causantes del cambio climático, asumiendo su responsabilidad histórica y actual, deben reconocer y honrar su deuda climática en todas sus dimensiones, como base para una solución justa, efectiva y científica al cambio climático.
  • En el marco de la deuda climática, exigimos a los países desarrollados que restablezcan a los países en desarrollo el espacio atmosférico que está ocupado por sus emisiones de GEI.
 
Mercados de carbono y mecanismos conexos:
 
  • Retamos a los Estados a abandonar las soluciones falsas al cambio climático que impactan de manera negativa en nuestros derechos, tierras, aire, océanos, bosques, territorios y aguas como pueblos indígenas. Estas falsas soluciones incluyen la energía nuclear, las represas hidroeléctricas masivas, técnicas de geoingeniería, el “carbón limpio”, los agrocombustibles, las plantaciones, los mecanismos de mercado de carbón, los Mecanismos para el Desarrollo Limpio y la compensación de bosques.
  • Las soluciones propuestas por los gobiernos y ONG internacionales para enfrentar los efectos del cambio climático basadas en la lógica de mercado, tanto los referidos al mecanismo de desarrollo limpio como las propuestas de REDD+, constituyen nuevas formas de geopolítica económica que amenazan los derechos indígenas garantizados en múltiples instrumentos internacionales y los medios de vida de nuestros pueblos.
  • REDD+ debe garantizar y respetar los derechos de los pueblos indígenas, los modos tradicionales de vida y la gobernanza consuetudinaria de los bosques.
 
 
Durban, Sudáfrica, noviembre del 2011.
 
Foro Indígena Global sobre Cambio Climático

sábado, 19 de novembro de 2011

Comunidade Kaiowá Guarani, do Mato Grosso do Sul, sofre massacre na manhã desta sexta-feira, 18.



Renato Santana
De Brasília

No início da manhã desta sexta-feira (18), por volta das 6h30, a comunidade Kaiowá Guarani do acampamento Tekoha Guaiviry, município de Amambaí, Mato Grosso do Sul, sofreu ataque de pistoleiros, cerca de 40, fortemente armados.

O massacre teve como alvo o cacique Nísio Gomes, 59 anos, (centro da foto) executado com tiros de calibre 12. Depois de morto, o corpo do indígena foi levado pelos pistoleiros – prática vista em outros massacres cometidos contra os Kaiowá Guarani no MS.  

As informações são preliminares e transmitidas por integrantes da comunidade – em estado de choque. Devido ao nervosismo, não se sabe se além de Nísio outros indígenas foram mortos. Os relatos dão conta de que os pistoleiros sequestraram mais dois jovens e uma criança; por outro lado, apontam também para o assassinato de uma mulher e uma criança.  

“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12” , disse um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.

Conforme relato do indígena, o cacique foi executado com tiros na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas. “Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.

Na frente do filho, executaram o pai. Cerca de dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato e só se sabe de um rapaz ferido pelos tiros de borracha – disparados contra quem resistiu e contra quem estava atirado ao chão por ordem dos pistoleiros. Este não é o primeiro ataque sofrido pela comunidade, composta por cerca de 60 Kaiowá Guarani.  

Decisão é de permanecer

Desde o dia 1º deste mês os indígenas ocupam um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá.

A ação dos pistoleiros foi respaldada por cerca de uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10 nas cores preta, vermelha e verde. Na caçamba de uma delas o corpo do cacique Nísio foi levado, bem como os outros sequestrados, estejam mortos ou vivos.

“O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha”, afirmou o indígena. Ele disse ainda que a comunidade deseja enterrar o cacique na terra pela qual a liderança lutou a vida inteira. “Ele está morto. Não é possível que tenha sobrevivido com tiros na cabeça e por todo o corpo”, lamentou.

A comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual antes da ocupação do pedaço de terra no tekoha Kaiowá. O acampamento atacado fica na estrada entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, perto da fronteira entre Brasil e Paraguai.   

Fonte Conselho Indigenista Missionario - CIMI




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Caucho recebe plano de gestão

A Gestão Ambiental, nos territorios indígenas, ha muito tempo vem sendo realizado pelas comunidades indígenas, mas somente agora o Estado por meio de parceria internacionais, vem realizando os Etno Zoneamentos em Terras Indígenas. Essa nova ferramenta possibilitará aos Povos Indígenas beneficiados com projeto, um novo marco para que estes possam utlizar suas riquezas naturais com maior conhecimento de seus pontenciais economicos.
Visto que simplesmente a demarcação dos territorios já não é suficiente para manter a comunidade vivendo com condições dignas em suas aldeias. Requer atualmente, construir planos de utilização de suas riquezas, planejar a utilização dessas riquezas, utilizando, mais também conservando e preservando para as gerações futuras.
Dentro desse pensamento a Comunidade Kaxinawa ( Huni Kui) da Terra Indígena Kaxinawa do Igarapé do Caucho, receberam da equipe da GIZ (Cooperação Alemã), SEMA e FUNAI, no dia 27/10/2011 na aldeia Caucho o Plano de Gestão de sua terra.
Os passos futuros dessa comunidade, será implementar cada atividade que consta no plano de ação, buscar parceiros financeiros e tecnicos, além de incorporar novas tecnologias para a efetivação de seu plano de vida. Além de incerir esse material na grade curricular das escolas kaxinawa do Caucho, essa atividade será de fundamental importancia, visto que a escola será uma ferramenta apropriada para intensificar essa ferramenta a nova geração Huni Kui

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Entre Culturas

No período de 19 a 21 de agosto de 2011, o Centro de Formação Intercultural Indígena – CEFI, instituída em 23 de setembro de 2010, realizou o primeiro Seminário denominado Entre Culturas: Um Novo Olhar na Formação de Lideranças Indígenas para Sustentabilidade de seus Territórios”. esse evento contou com apoio da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, por meio da Coordenação Geral de Educação – CGE, Fundação Garibaldi Brasil – FGB, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, ao Desporto, Preservação e Manutenção do Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Rio Branco - Lei nº. 1.324/99, a Universidade Federal do Acre – UFAC, que cedeu o Professores Doutores, Simone Lima de Souza, que mediou o tema Formação, Sustentabilidade, Identidade, Território, Memórias, Linguas e Mitos. Célia Gouveia, que mediou o tema Educação Intercultural e o PET Indígena e Francisco Gilberto Dalmolin, que mediou o tema Educação Superior Indígena e a Educação Intercultural, que também Pro Reitor de Extensão, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA, que cedeu o Drº, Pesquisador Moacir Haverroth, que mediou o tema Desenvolvimento Sustentável, Etno Desenvolvimento, Territórios Indígena e o Dialogo Interculturais, Sustentabilidade e Educação, o Banco do Brasil S/A, agencia bosque que convertei o bônus fiscal em dinheiro e a Ouvidoria da FUNAI que disponibilizou Drº. Paulo Celso de Oliveira como mediador no tema, o Estado Brasileiro, da Tutela ao Indigenismo Contemporâneo, o Estado e os Povos Indígenas no Brasil e pela Coordenação Regional, Juan Negretti, Indigenista Especializado que tratou sobre a reestruturação da FUNAI.
Contamos também a colaboração do senhor Francisco Avelino Batista, representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, sendo o debatedor nas três mesas.
O seminário contou a participação da comunidade Shanenawa da aldeia Morada Nova, Terra Indígena Katuquina/Kaxinawa, localizada no município de Feijó – Acre, da Comunidade Kaxinawa da aldeia Colônia 27, localizada no município de Tarauacá – Acre, das lideranças Jaminawa, Valdo Melendre Jaminawa e Josimar Barreto Jaminawa da aldeia Betel, Terra Indígena Mamoadate, localizada no município de Assis Brasil – Acre, dos Acadêmicos Manchineri na Universidade Federal do Acre – UFAC.
Após os três dias de palestras e debates, pudemos visualizar as principais diretrizes de formação que o Centro de Formação Intercultural Indígena – CEFI, poderia disponibilizar as comunidades indígenas no Estado do Acre, Noroeste do Estado de Rondônia e Sul - ocidental do Estado do Amazonas. O segundo passo a após o seminário será consolidar o documentado do seminário, elaborar o projeto Político Pedagógico e buscar parceiros, técnico e financeiros para implementar as atividades.
É necessário construirmos essas parcerias para conseguirmos atingir nossos objetivos, está claro para as lideranças, que o futuro significa fortalecer cada vez a cultura indígena, mas também a incorporar novas tecnologias para auxiliar na gestão dos recursos naturais existentes nos territórios indígena.
 “500 anos de luta, mas a gente acompanha as discussões, agora na AL. Isso é uma conquista. Tem muita gente querendo trabalhar com os índios, mas tem muitos que tem preconceito. TI tem 305 ha. Muitas TI tem muitos recursos naturais. Quando se fala da história de vida da colônia 27, muita gente não acredita.  Muita gente pergunta onde nos plantamos nossas espécies, mundubim, etc. ... 04 km de caminhada até Tarauacá, sendo 25 minutos de bicicleta. Antigamente, nos vivíamos sem muitos brancos estarem impedindo nossa caçada, nossa pesa, frutas nativas da mata. Vejo muito parentes sofrendo ainda mais dos que nos. A nossa luta de buscar apoio. Se fossemos como outros parentes, como o branco,  porque somos todos seres humanos. A terra cria e a terra come. Muita gente não valoriza as suas pessoas, não sabe conviver em sociedade, são doutores, mas não valorizam suas pessoas, tem dinheiro, mas são orgulhosos, para nos, o que importa é respeitar os outros, os mais velhos, os professores, o s pajés. Isso é bom para nós, respeitar todos.  Quero dizer que nossa luta no, Vinte e Sete, foi difícil, mas hoje estamos bem”. (Raimundo Gomes Kaxinawa, liderança da aldeia Colônia 27 – Tarauacá – Acre).
 “Em Manaus, a COIAB também tem um centro de formação. Tem-se formado gestores de projetos e  gestores ambientais. Assim, formando novas lideranças indígenas. O CEFI também tem essa importância, formando lideranças nos temas de interesse. A educação, no entanto, tem ficado mais esquecida, sendo, no entanto, prioridade de ser discutida. Há necessidade de o movimento priorizar a educação.
Quando Jorge Viana entrou, ajudamos a construir as políticas. Juntou-se movimento contra construção da BR na TI Katukina na época. O momento é de começar a discussão de construção de políticas. Caiu-se de Secretária Extraordinária para Assessoria. Também houve discussão do Conselho de política indigenista estadual, porém, não houve avanço. Há necessidade de se colocar na pauta de discussão novamente com os parlamentares e dirigentes políticos”(Francisco Avelino Batista, representante da COIAB na APIB).

sábado, 8 de outubro de 2011

SE EU FOSSE OS ÍNDIOS: AS LÍNGUAS

José Ribamar Bessa Freire
17/05/2009 - Diário do Amazonas

 (TEXTO TB EM ESPANHOL)
“Teve um tempo que nós, para viver, precisamos nos calar. Hoje, nós, para viver, precisamos falar”.
(Pajé Luiz Caboclo – índio Tremembé do Ceará)

Se eu fosse os índios – não UM índio, mas OS ÍNDIOS que vivem nesse chão que é hoje o Brasil - aproveitaria a Conferência Regional de Educação Escolar Indígena, que começa amanhã, em Manaus, e diria para o Ministério da Educação o seguinte: hoje, nós, para viver, precisamos falar. Por isso, nas novas diretrizes que vão ser formuladas em setembro de 2009, na I Conferência Nacional, em Brasília, nós, índios, queremos deslocar TODO o peso da educação para o uso de nossas línguas, que são portadoras dos demais saberes.

Durante 500 anos – eu diria ao ministro Fernando Haddad – ficamos mudos, sem voz. Proibiram nossas línguas e tudo que era guardado e transportado nelas: conhecimentos, pensamentos, afetos, história, memória, narrativas, mitos, cantos, poesia. O padre João Daniel conta que em 1750 um missionário espancou uma índia do Marajó com ‘bolos’ de palmatória, dizendo:

“Só paro de bater quando você disser ‘basta’, mas não na tua língua”. Ela calou. Suas mãos sangraram, mas ela não traiu a língua-mãe.

No entanto, nem todos conseguiram resistir assim. Eram mais de 1.300 as línguas faladas no Brasil. Cerca de 1.100 foram extintas na base da porrada e com elas desapareceram saberes milenares. Sobraram menos de 200 línguas, vivendo na clandestinidade, cochichadas, sussurradas. Falávamos escondidos, exclusivamente dentro das aldeias, línguas que nunca entraram na escola, de onde foram enxotadas e banidas. Nos internatos salesianos do Rio Negro, quem abria a boca em sua língua materna era castigado sem dó nem piedade, isso até recentemente, até 1988, quando a Constituição nos devolveu o direito à fala.

Foi uma grande conquista! Já não precisamos mais mandar nossos filhos para uma escola glotocêntrica e monolíngüe, que discriminava a língua adquirida no colo da mãe e tentava, sem sucesso, nos alfabetizar em uma língua estranha, que não falávamos. Com pretensão de ser uma fábrica de fazer brancos, a escola nos emudecia, porque, por um lado, reprimia nossas línguas maternas e, por outro, não nos tornava competentes na língua oficial. Ficamos sendo os sem-línguas.

Com a Constituição, conquistamos o direito de aprender a ler em nosso idioma, de usá-lo como língua de instrução nas primeiras séries e de aprender o português como segunda língua. Assim, a língua que expressa nossa alma e que só era falada em casa, ganhou legalmente um novo espaço: a sala de aula, onde também – agora para valer – o português passou a ser uma segunda alternativa, planejada, como escolha nossa e não como imposição do colonizador.

No entanto, falta ainda muito a conquistar – eu diria ao MEC. São quase 2.500 escolas indígenas, mas muitas delas, em vez de ensinar na língua, dedicam um curto tempo para ensinar a língua. Não existe material de leitura nelas, o currículo nem sempre é intercultural, os cursos de formação de professores não são bilíngües e, diante da televisão monolíngüe que invade as aldeias engrolando uma variedade do português que não é a nossa, as crianças, os jovens e até muitos de seus pais se perguntam: por que preservar uma língua indígena? Para que serve uma língua sem prestígio?

A cada quinze dias morre uma língua no planeta, entre outras razões porque seus usuários perderam o orgulho e o desejo de falá-las. No mundo existem 6.700 línguas, mais de 5.000 delas ameaçadas. Nossas línguas, consideradas como se estivessem no corredor da morte, na realidade não são moribundas, mas anêmicas e podem ser revitalizadas.

Alguns de nós, cujas línguas já estão mortas, conseguimos transferir parte de nossos saberes para a língua portuguesa – um português indianizado, com a nossa cara, que é discriminado, mas que queremos também seja respeitado. O escritor português José Saramago disse que existem várias línguas faladas em português. Nós não queremos que desapareça a nossa forma de falar, nem na língua indígena, nem no português que falamos marcado pelo contato entre línguas. 

Somos povos da oralidade, eu explicaria ao MEC, se fosse os índios. Então, nós, índios, queremos fortalecer a expressão oral, mas precisamos também – não todos, mas muitos de nós – da escrita, essa técnica poderosa capaz de aprisionar o som, como quem agarra a fumaça com a mão para guardá-la num paneiro. Queremos nos apoderar da escrita, que confere prestígio, em nossas línguas e em português.

Mas a escrita que queremos é uma escrita viva, não uma escrita funerária, onde o livro parece um caixão que guarda o cadáver das palavras, que nunca mais serão pronunciadas. Ler é ver o som, ver um desenho que nos permite reconstituir o som. Queremos uma escrita que alimente nossa oralidade, em uma escola que desenvolva a escrita em nossas línguas, como um meio de afirmação histórica, política, de criação artística e de cidadania.

A língua, veículo de experiências milenares, é um modo de ver, perceber e pensar. Queremos escritores indígenas publicando narrativas, poesia, cantos em nossas línguas. Queremos ganhar a letra, mas sem perder a palavra. Sonhamos com uma escola que promova tanto a oralidade como a escrita em língua indígena para que sejam valorizados os conhecimentos, tradições e saberes dos anciãos. Queremos ler e escrever bem em nossa língua e em português, mantendo o bilingüismo para sempre, não um bilingüismo transitório que seja mera ponte para o monolinguismo em português. Nós, que já fomos os sem-línguas, agora ambicionamos ter as duas línguas.

A língua é arquivo da história, é a canoa do tempo, responsável por levar os conhecimentos de uma geração à outra. Pretendemos remar as duas canoas, que já fazem parte de nossa vida: uma carregada de saberes tradicionais, a outra com os novos saberes, ambos necessários para nossa sobrevivência e para a afirmação da nossa identidade. Lutamos por um bilingüismo que guarde a nossa memória em português e em uma língua indígena, re-atualizando permanentemente os saberes que elas veiculam. A maioria de nós, hoje, não pode mais viver sem as duas, que já fazem parte do nosso jeito de ser.  

Se eu fosse os índios e o MEC me ouvisse, diria: ganhamos um espaço na escola, que precisa ser consolidado. Mas isso ainda é pouco para manter o bilingüismo. Queremos ampliar os espaços dos usos sociais de nossas línguas. Na Bolívia, Peru e Equador, programas de rádio e televisão, além de espanhol, falam quéchua e aimara.

No Brasil, há alguns anos, proibiram o uso do Nheengatu num programa de rádio no rio Negro, alegando que a Constituição não permitia o uso de “língua estrangeira”. O problema só foi contornado quando uma lei municipal decretou o Nheengatu, o Baniwa e o Tukano como línguas co-oficiais em São Gabriel da Cachoeira (AM). Queremos que nossas línguas sejam co-oficializadas nos municípios onde são faladas, para que não sejam consideradas mais como estrangeiras em nossa própria terra.

Queremos que nossas línguas, que saíram da aldeia e entraram na escola, agora ocupem espaços nos livros, nas bibliotecas, nos museus e em programas bilíngües de rádio e TV. Desejamos explorar novos tipos de oralidade e de escrita surgidos com as tecnologias da informática, do vídeo, porque a palavra já superou as limitações do espaço e do tempo.

Antes, só se podia falar com quem estivesse na presença da gente. Hoje, o telefone e a internet permitem que uma aldeia guarani do Rio Grande do Sul se comunique com os Tuyuka no rio Tiquié (AM). Além disso, podemos ouvir a voz gravada de alguém que já morreu. Hoje, os mortos falam. Queremos criar espaços culturais que abriguem arquivos sonoros, com o material coletado em línguas indígenas

As novas diretrizes – eu reivindicaria ao MEC, se fosse os índios - devem apontar para o uso das línguas também FORA da aldeia e do espaço escolar, em maior número de âmbitos e funções, inclusive em espaços urbanos. Segundo o último censo do IBGE (em 2.000), os índios no Brasil eram 734.127, dos quais a metade vivia nas cidades. A projeção para o ano 2.010 é de que ultrapassaremos um milhão de habitantes. Reivindicamos que o MEC tenha uma política educacional e de línguas para nossos parentes que vivem nas cidades, transformadas em cemitérios de línguas indígenas. O último falante da língua baré está enterrado em Manaus.  

Precisamos de mais pesquisadores estudando nossas línguas – os que existem são insuficientes. Esperamos que o MEC incentive as universidades a formar índios em Lingüística. Queremos bibliotecas, videotecas e mitotecas bilingües, onde possamos acessar nossos conhecimentos. Necessitamos produzir textos e vídeos em nossas línguas maternas e queremos capacitação para isso. Nos cursos de formação de professores indígenas, os formadores, entre outros, devem ser índios já formados e os velhos reconhecidos pelo saber, competentes em língua indígena.

Queremos sair do confinamento em que fomos colocados e participar da Lei 11.645, que torna obrigatória a temática indígena no sistema nacional de educação escolar. Podemos contribuir para que a escola do branco mude a imagem preconceituosa que construíram sobre nós, índios. Queremos revitalizar nossas línguas, que são línguas de resistência. É dramático ter de falar, sozinho, diante do espelho como fez Tikuen, índio Xetá, por falta de interlocutores.  

Queremos nos apoderar dessas tecnologias: rádio, telefone, gravador, filmadora, TV, computador e combinações de uns com os outros – fax modem, base de dados, multimídia. Vale tudo para fortalecer a língua e a tradição. Queremos que a Escola, o Museu, a Rádio e a TV promovam um novo movimento cultural, revolucionário, que desenvolva nossas línguas e incentive seu uso por parte das crianças e dos jovens. Só assim elas serão salvas e só assim nós poderemos falar, em vez de calar. Para isso, basta, apenas, trocar uma letra. Essa é uma questão de vida ou morte: nossa e das línguas que falamos.

Sobre nossos ombros, o peso e a responsabilidade de salvar um patrimônio, que não é só nosso, mas do Brasil e da humanidade. Queremos que o MEC nos dê instrumentos para preservá-lo. Era isso que eu diria ao MEC, se eu fosse os índios. Escreveria em português, para o MEC entender, mas traduziria para cada uma de nossas línguas, para que cada um de nós leve essa mensagem no coração.

P.S. – Escrevo do Ceará, durante o intervalo de um seminário sobre museus indígenas, que é outra forma de fala dos índios. Mudando de assunto, se eu fosse, NÃO os índios, mas apenas UM índio, daria flechadas na bunda dos Irmãos Metralha, irmãos do vice-governador do Amazonas Omar Aziz. Eles invadiram uma sala da Universidade Federal do Amazonas e espancaram o professor Gilson Monteiro, por discordarem do conteúdo de sua aula. Esses dois brucutus nem suspeitam o que é liberdade de expressão. No próximo domingo, abordaremos essa questão.